quarta-feira, 1 de julho de 2015

“As Muquiranas” estão de volta e reestreiam na lavagem da Igreja de São Boaventura


E “As Muquiranas” estão de volta
Homens travestidos de mulher, com toda a esculhambação permitida. Ainda não será desta vez que as “meninas” do Bloco Carnavalesco “As Muquiranas” reestrearão num clima de apoteose, em respeito ao Santo Padroeiro de Canavieiras. Mas prometem voltar às ruas de Canavieiras durante o cortejo e lavagem das escadarias da Festa de São Boaventura. A concentração está marcada para as 8 horas de domingo, dia 12 de julho, na praça Maçônica, onde tem início o cortejo, que desfila pela Rua 13 e final na Igreja Matriz de São Boaventura.

Durante a lavagem da escadaria da Igreja a apresentação será feita com uniforme condizente com a ocasião: uma camisa de malha com a logomarca do bloco e a figura de São Boaventura. Cada camisa tem o custo de R15,00 (quinze reais) e poderá ser obtida com os dirigentes da agremiação ou na Confraria do Berimbau. Além dos associados de “As Muquiranas”, no evento do cortejo e lavagem serão aceitas participações de outras pessoas, que poderão ser apresentadas pelos seus membros.

Na praça São Boaventura, “As Muquiranas” implantarão uma barraca com comidas apropriadas para a incursão etílicas, como sarapatel, mocofato, dentre outras especialidades capazes e apropriadas para dar sustança aos participantes da festa, bem como bebidas variadas. Os recursos obtidos na barraca serão transformados em fundo de investimento e custeio para os foliões durante o Carnaval de 2016.
 
Contribuições – Desde sua refundação sob as bençãos da Confraria do Berimbau, o Bloco “As Muquiranas” já conta com quase uma centena de sócios contribuintes, que comparecem à tesouraria através de um carnê de pagamento mensal. A previsão da diretoria é a realização de um grande Carnaval, relembrando os tradicionais desfiles de anos anteriores, quando atraiam foliões de outras cidades circunvizinhas.
 
Conforme dados e fotos históricos, o bloco “As Muquiranas” contavam em seus desfiles com personagens com Juca Seara, Biriri, Geraldo Carneiro, José Leal, Almir Melo, lourival e Alício Monteiro, Orlando Maia, Tedesco, Bira Magnavita, Negão, Chico Soussa, Edmundo Melo, Dr. Sócrates, José Garcia, dentre outros. Para relembrar os antigos carnavais e seus membros, na barraca da praça São Boaventura serão exibidas fotos das festas de escolha da Rainha do Bloco e os memoráveis desfiles carnavalescos.

Segundo uma pré-programação, na sexta-feira do Carnaval de 2016 será realizada uma monumental festa para a tradicional escolha da Rainha de “As Muquiranas”. No domingo e na terça-feira de Carnaval “As Muquiranas” realizam o tradicional desfile pela Rua 13, devidamente fantasiados. Os sócios contarão com diversos serviços inerentes à folia como um carro de apoio servindo bebida aos participantes.
 
A Diretoria de “As Muquiranas” é composta por Hipólito Lucena - Presidente, Vice-presidente - João de Cezário, Secretário Daeltto Santos Brito, Tesoureiros - Nelson Barbosa, Nei Pinto e Trajano Júnior, Diretor de Eventos - Abel Lisboa, Diretor Social – Edmundo Melo, Diretor de Marketing – Walmir Rosário, Diretoria de Assuntos Especiais – Antônio Tolentino e José Gama, Conselho Fiscal - Severo, José Bandeira e Tolentino da Piaçava.

Contatos: 73-9933-0330, 9967-6733 e 9975-1044.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Expansão do Berimbau – de bar a padaria e quem sabe...


A motocicleta com o baú é mais comodidade ao cliente
Na França, o costume é cada um passar na padaria, comprar sua baguete, colocá-la debaixo do braço, sem embalagem, e levá-la para casa. No caminho, uma parada num café, num bistrô, sempre com a baguete ao lado. No Brasil, temos dois costumes, ir à padaria comprar os pães ou pedi-los pelo delivery, meio mais prático, mas nem sempre o mais barato, já que na composição do preço entra um novo componente: o moto entregador.

Em Canavieiras, um serviço foi resgatado de tempos passados e é a padaria quem vai à casa do cliente. A inclusão dessa modernidade (do passado) é ideia de José Gama, ou Zé do Gás, que hoje administra a Confraria do Berimbau, reduto da boemia canavieirense, hoje mesclada entre membros da velha e jovem guarda etílica. O que não é novidade é fusão das duas empresas – o bar e a padaria - que hoje funcionam no mesmo local.

Para proporcionar mais comodidade aos clientes, a padaria – um dos braços econômicos do Berimbau – chega às casas dos clientes com um mix de produtos, que vai dos pães (francês, milho e variedades doces) chegado ao leite, iogurte e outros produtos de laticínios. Se antes esses produtos eram transportados pelos chamados “padeiros” em grandes cestos na cabeça, hoje desfilam pelas ruas da cidade de motocicleta.

Uma motocicleta adaptada com um “baú” fechado que aloja bandejas de pães em prateleiras, conforme saem do forno. Numa caixa isotérmica são transportados os produtos de laticínio, para que não percam a frescura – temperatura baixa, no bom sentido. Em cada uma das ruas, o Galego para num ponto previamente estabelecido, buzina e vai servindo os clientes que vão se aproximando da moto baú. A prestação do serviço não altera o preço do produto ao consumidor, o que é considerada uma vantagem.



GALEOTA DE OURO

O bar O Berimbau foi criado por Neném de Argemiro e posteriormente foi transformado na pomposa Confraria do Berimbau, quando passou a sediar a “Galeota de Ouro”, evento etílico e gastronômico fundado por um grupo de amigos. Funcionando como uma festa de camisas, o serviço era all inclusive, com uma grande variedade de cachaça, cerveja em lata bem gelada e o melhor “churrasquinho de gato” que se tem notícia.

A cada ano, reuniões de avaliação eram realizadas pelos membros da Confraria do Berimbau, e conferidas premiações em troféus pelos absurdos cometidos sob o efeito dos produtos etílicos durante o ano. Apesar de passar a impressão de que seria uma competição para verificar quem beberia mais, a concepção era premiar os praticantes dos excessos. O evento teve sua morte decretada a partir das divergências políticas e econômicas surgidas entre os confrades.

FUTURA EXPANSÃO

Com o sucesso obtido na reabertura, acrescentando a atividade de padaria ao já instalado bar, a nova proposta é ampliar as atividades, desta vez com a implantação de uma pousada. A intenção é ampliar o leque de oferta de serviços aos mesmos clientes do bar, merecedores de um bom descanso após a ingestão de alguns aperitivos. Nada como uma boa cama. Enquanto o serviço não é oferecido, Zé do Gás deixa sempre um colchonete de prontidão para as necessidades mais emergentes.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

CANAVIEIRAS DESBANCA SÃO PAULO E PROVA QUE O RODÍZIO COMEÇOU AQUI

Por Walmir Rosário
Parece que os historiadores têm memória curta! Impossível não se lembrarem de que rodízio de serviços prestados pelo governo e suas concessionários são coisa deste mundo moderno. Aí que vocês se enganam. Basta botar a mão na cabeça e puxar pela memória que vão se dar conta que não é São Paulo a pioneira no sistema de rodízio, nem mesmo a circulação de veículos, inaugurado anos atrás, nem o de água, cantado e reclamado em verso e prosa até os dias de hoje.
Já deveria estar inscrita no Guines Book, o livro de recordes, caso algum canavieirense de memoria e boa vontade assim quisesse. Bastaria um simples telefonema, um simplório e-mail para os gringos conferirem o feito e desbancar São Paulo. Pois fiquem sabendo quem interessar possa que esse feito ainda vai ser motivo de orgulho, com livros de teses escritos para comprovar essa orgulhosa marca. Para que se restabeleça a verdade, São Paulo pode, no máximo, alcançar o segundo lugar.
Esse motor ainda é pequeno em comparação ao Locomóvel
E era a “Locomóvel”, nome de batismo popular dado à possante máquina que aportou por aqui à bordo de um vapor da Bahiana e transportada à rua Ruy Barbosa, local de sede da briosa “Luz e Força”, ou para os menos esclarecidos o motor de luz. Quem não lembra da festa iniciada com discursos e foguetórios para comemorar a chegada de um potente motor de luz! Era a glória, para os políticos de então, a começar pelo prefeito Edson Castro, autor do pedido.
E chamava a atenção o tamanho da Locomóvel, que para os mais viajados parecia um motor de navio transatlântico, embora para outros se tratasse de uma cabeça de locomotiva vinda do exterior para gerar energia elétrica de qualidade em Canavieiras. Nem mesmo essa grandeza toda seria capaz de fornecer a potente iluminação – se comparada aos candeeiros, fifós, placas e aladins das residências – em toda a cidade.
Como a potencia foi reconhecida insuficiente, um conhecido eletricista recomendou ao prefeito que não se avexasse com isso e estabelecesse um rodízio no fornecimento da moderna energia elétrica disponível das 18 às 23 horas. E a energia se despedia solenemente, com os devidos avisos de antecedência do desligamento, para dar tempo aos notívagos e os mais afoitos casais de namorados chegarem a casa ainda no claro.
– Vai ser batata! – disse o eletricista ao prefeito, detalhando o projeto na ponta da língua:
– Num dia, a gente liga as ruas Ruy Barbosa (onde ficava a Locomóvel), rua 13 (que ainda não era Octavio Mangabeira), General Pederneiras e dos Pescadores. No outro será a vez do complexo de praças da Bandeira, 15 de Novembro, São Boaventura e a avenida J. J. Seabra (hoje ACM). No terceiro dia seriam contempladas a, Benjamim Constant, Marechal Deodoro e Barão de Cotegipe –.
E assim foi vivendo a sociedade canavieirense, que marcavam suas festas e demais eventos sociais para os dias de clarão em sua residência, gozando, portanto, das modernidades de então. Mas como a teoria de Murphy nos ensina que não existe nada ruim que não possa piorar, eis que a gloriosa Locomóvel bateu biela, quebrou pistom, queimou válvulas e chegou ao fim de linha. Eis que o que era ruim ficou pior.
Eram os tempos do prefeito Osmário Batista, que prometeu substituir a Locomóvel por um gigantesco motor, equipamento vindo do exterior, não se sabe ao certo se Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. Mas vinha com a missão de iluminar todo o território canavieirense, até a distante Potiraguá, ainda dentro dos seus domínios. Também não deu certo e o possante motor, logo apelidado de “elefante branco”, dada a sua pífia serventia.
Foi o caos. Mas eis que as gestões políticas e uma comissão de alto nível liderada pelo prefeito Edmundo Lopes de Castro fez ver ao governador Lomanto Júnior que uma cidade do porte e da importância de Canavieiras não podia ficar às escuras, sob pena dos eleitores não acertarem nem mesmo depositar os votos nas urnas.
Diante de tão qualificado e irrecusável apelo, eis que no dia 13 de dezembro de 1963 três conjuntos de moto geradores doados pelo governador Lomanto Júnior começam a funcionar, justamente no dia consagrado a Santa Luzia. Com isso, a Locomóvel foi aposentada e hoje, sequer, lembram dela, caiu no mais absoluto esquecimento.
Entretanto, os três pequenos conjuntos de moto geradores não se encontravam à altura dos costumes de tradições de Canavieiras. É certo que deu sua contribuição, aumentando em uma hora o fornecimento de energia elétrica – das 18 às 24 horas – o era um considerável avanço, mas a vida noturna, a boemia, já não podia continuar às escuras, o cinema pretendia exibir uma segunda sessão, o clube social continuar as festas até o raiar do dia e sem energia nada disso seria possível.
Foi então que no fatídico dia de 23 de agosto de 1973, sob as benções de Antônio Carlos Magalhães e do prefeito João Perelo, Canavieiras se integra ao seleto grupo de cidades interligadas ao sistema da Barragem do Funil e quiçá o moderno sistema de Paulo Afonso. Um dia como esse era especial e merecia uma comemoração à altura do benefício.
Imediatamente, um grupo de rapazes alegres e chegados a um dia de folguedos sugerem – ou melhor, já levaram pronto – o ato oficial para decretar feriado em todo o Município, inclusive no Banco do Brasil. E assim foi feito: O prefeito João Perelo assinou o decreto e a cachaçada “comeu no centro” até altas horas do dia seguinte.
Festejou-se muito, para nada! É que o governador Antônio Carlos Magalhães, o “Toinho Ternura” – que tinha fiat lux –, não estava presente às comemorações da nova iluminação e marcou uma nova data, 23 de outubro de 1973, esta oficial, com direito a aplauso de toda a sociedade. E para isso, um novo feriado foi decretado – também com a ajuda do grupo Tolé, Tedesco e cia.. – com o competente fechamento dos banco.
Mais uma homérica cachaçada, em que até um professor e ex-pastor – um homem de Deus, portanto – se juntou à gandaia. Uma festa de arromba, digna do esquecimento da Locomóvel, máquina usada e abusada para não deixar a cidade às escuras, mas agora aposentada e enterrada num ferro-velho qualquer desse Brasil afora.
Tolé até hoje ainda se lembra da maldade que fez com “velho professor” e da homérica ressaca sofrida. Mas, o que fazer, se até o Dr. Boinha Portela tinha colocado toda as mercadorias de O Berimbau à disposição dos amigos, com a recomendação expressa dada a Neném de Argemiro de não cobrar nada de ninguém, pois a farra seria bancado do seu próprio bolso.

Realmente, foi por uma causa justa, justíssima!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

TODA AUSÊNCIA É ATREVIDA, MAS O CASTIGO NÃO TARDARÁ


Moqueca de Ovas de peixes
Como é amplamente sabido, o brasileiro aposta que toda a lei sancionada não vai pegar.. E isto está acontecendo até na Confraria do Berimbau, para o espanto dos confrades. Ainda nesta semana, apesar da ampla divulgação da entrada em vigor do Decreto-Lei que regulamenta o oferecimento dos tira-gostos, que obedece a uma lista de espera.
Pois não é que logo no primeiro sábado do instrumento legal em vigor, um dos confrades desafiou o Decreto-Lei 001-2015, chegando, de forma sorrateira e sem-cerimônia, com um prato de carne suína assada, deixando-a em cima do balcão. Imediatamente foi chamados às falas por tamanho desrespeito, denunciado e aguarda julgamento sumário.
Moqueca de Ovos de Galinha caipira
O confrade, cujo nome será mantido em sigilo até o julgamento, não conseguiu tirar o brilho das iguarias previamente anunciadas para o sábado (21): uma travessa de moqueca de ovas de peixe e outra de igual proporção de ovos de galinha, trazidas pelos confrades Hipólito e José Alves, respectivamente. Bom que se anuncie que os dois pratos já se encontravam devidamente inscritos para a assembleia semanal.
Na próxima semana, será a vez da especialidade de Carlos Niella, uma suculenta panelada de rabada bovina, iguaria utilizada pelo confrade para receber os amigos mais chegados.

Com a palavra, o Secretário Plenipotenciário da Confraria do Berimbau, que não costuma tergiversar nos assuntos jurídicos da Entidade, aplicando os rigores da Lei, custe o que custar...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

AGORA É LEI. PRA LEVAR TIRA-GOSTO TEM DE ENTRAR NA FILA


Secretário Plenipotenciário lê o Decreto-Lei
Bem que avisei que a ostentação não é um comportamento adequado para um botequim do nível de o Berimbau, mas como não acreditaram, deu no que deu. De acordo com Decreto-Lei editado, lido ao vivo e publicado no mural pelo Secretário Plenipotenciário do Berimbau, Antônio Amorim Tolentino, o Tolé, quem se candidatar a levar qualquer prato tem que se increver e entrar na fila de espera.
E, ainda por cima, tem que obedecer a uma série de trâmites burocráticos para que o seu prato seja aprovado, para que possa saciar o apetite dos membros presentes às sessões de sábado da Confraria do Berimbau. Nada mais é aleatório e é preciso conhecimento prévio das iguarias gastronômicas, com a finalidade de verificar se está de acordo com os padrões gustativos e conformidade com as questões de saúde pública.
Tolé publica o Decreto-Lei no mural
Pois em atitude solene, no sábado passado (14), em pleno reinado de Momo, com o Berimbau devidamente enfeitado com motivos carnavalescos, eis que o Secretário Plenipotenciário impõe respeito às normas e lê, item por item, os termos do Decreto-Lei.
E de considerando em considerando, é uma obrigação da Confraria do Berimbau zelar pela saúde e bem-estar dos confrades e que a grande ingestão de tira-gostos poderá causar certo desconforto nos delicados aparelhos digestivos, além do consequente crescimento de protuberância abdominal, conhecida vulgarmente como barriga.

Fila de Confrades para levar os tira-gostos





Democraticamente imposto, o “tenho dito” do Secretário Plenipotenciário deu início ao fim do atual quadro de congestionamento de tira-gostos reinante na Confraria do Berimbau. Imediatamente, os confrades interessados fizeram suas inscrições em livro próprio e ainda nesta semana serão informados os deferimentos e indeferimentos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Medidas urgentes deverão ser tomadas para evitar congestionamento de tira-gostos

Após a profusão de tira-gostos, um panelação de "galada"
A Confraria do Berimbau atravessa um dos seus piores problemas, nunca antes verificados em toda sua existência: o congestionamento de comidas e tira-gostos. O secretário Plenipotenciário da Confraria, Antônio Amorim Tolentino (Tolé), já estuda a implantação de medida corretivas e moralizadoras com a finalidade de corrigir esse grave problema.
O assunto já está sendo tratado como uma bagunça generalizada, embora a organização nunca tenha sido o “forte” dos confrades. O tema está sendo considerado um desvio de finalidade e merece um estudo aprofundado, no sentido de evitar a continuidade do costume. O excesso de tira-gostos já está sendo visto como de saúde pública, com risco de aumento no volume da silhueta abdominal dos confrades.
Após as reclamações, o Secretário Plenipotenciário prometeu um estudo profundo sobre o problema e tomar as medidas cabíveis para solucionar tal aberração. Na reunião deste sábado (14), estão sendo esperadas atitudes moralizadores com o objetivo de corrigir os desvios de conduta na vetusta entidade.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

ASSIM ERA A CONFRARIA DO BERIMBAU – OU O CONCEITUADO BAR DE NENÉM DE ARGEMIRO


Terra em que filho chora e mãe não ouve, na Confraria do Berimbau as homenagens feitas em verso pelo poeta Adelmar Santos foi acompanhada de um pedido, este nunca pago pelo primo Antônio Tolentino (Tolé). Nem mesmo a sublime dedicatória com fartos elogios foi suficiente para o cumprimento da missão póstuma. E dizia assim (ipis literis):
Ao insigne primo, amigo e inteligência rara da nossa mui leal, heroica e provinciana cidade.
17/4/05
Adelmar Santos

LÁPIDE

Adelmar Santos (*)
Meu epitáfio
(uma sentença esdrúxula)
será escrito com o luzir das estrelas
por um bando de anjos fraudulentos
que profanaram sempre a minha mente
durante todo o meu viver.
Os mistérios azuis do Rio Pardo
(rio dos meus versos amargos)
um rio sem antiguidades
formataram meus sonhos inexpressos
com o grito dos afogados
e o aval de deuses trôpegos
nas noites de orvalhos tépidos.
Por isto, na minha lápide
(construída com efêmera matéria)
despida de eternidade
estarão bem preservados:
os odores dos meus versos
as cinzas dos meus poemas
e o enigma da minha trajetória.

(*) Homenagem pré-postuma aos parceiros da Confraria do Berimbau.
Suscipe, domine, servum tuum in locum sperandae sibi salvaionia a misericordia tua. Amen. Libera, domine, anima servi tu ex omnibus periculis inferni, et de laqueis poenarum, et ex omnibus tribulationibus. Amem. Libera, domine anima servi tui, sicut liberasti Henoch et Eliam de communi morte mundi. Amen.”

(Tradução do latim para a "Última Flor do Lácio para os aflitos e desconhecedores da antiga língua)

Recebe, senhor, o teu servo, no lugar onde espere a sua salvação, pela tua misericórdia. Amém. Livra, senhor, a alma de teu servo de todos os perigos do inferno e dos laços dos castigos e de todas as tribulações. Amém. Livra, senhor, a alma de vosso servo, assim como livraste Enoque e Elias da morte comum do mundo. Amém.

10 ANOS SEM NENÉM DE ARGEMIRO


Walmir Rosário*
O trompete na parede; Zé do Gás serve a batida aos clientes
O seu retrato continua na parede. O mesmo acontece com o trompete, silencioso. Os amigos continuam no Berimbau, reaberto por Zé do Gás. Com isso, a clientela ficou mais perto de sua Terezinha. Até de sua filha Vera.
Mas, há 10 anos que ele partiu, ficando para sempre na história dos amigos, de Canavieiras, sua cidade do coração. É sempre assim, não existe outra fórmula para permanecer para sempre junto à família, aos amigos. A partida é certa.
Partiu e deixou amigos tantos, que relembaram e comemoraram os 10 anos de sua partida para a eternidade. E lugar melhor para relembrar de Neném é o Berimbau, onde mantave sua trincheira por anos a fio.
Entre uma conversa e outra, um brinde a um feito qualquer – mesmo que não seja coisa séria... melhor, ainda! – com o tilintar de copos. É o mais vívido sinal de que reina a alegria no ambiente. Afinal, o Berimbau não é lugar pra coisa séria – a não ser a amizade.
Neném, com seu trompete, ao lado de Juninho e Luiz Madeira
O trompete está mudo, na parede, pois a ninguém foi dada a permissão para tocá-lo, tirar o menor dos acordes frequentes, daqueles que estávamos acostumados a ouvi-lo. As notas musicais de antes são substituídas pelos instrumentos dos frequentadores, que costumam alegrar as manhãs e tardes de sábado.
Uma cachaça, uma cerveja, por favor! Vamos brindar a alegria. Alegria, sim, pois onde estiver, Neném está nos acompanhando de perto, tomando conta do Berimbau, não o físico, hoje a cargo de Zé do Gás, mas o espiritual, aquele que contagia, que congrega, que ajudar a viver melhor em sociedade.
Traz aí o mal-assado! Não tem? Como? Nem tudo é perfeito, mas foi uma simples falha do secretário que não lavrou a ata e cuidou das programações festivas. Que não torne a outra, pois o Berimbau é coisa séria!
*Frequentador semanal

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

CABEÇA DE ROBALO – O MANJAR DOS DEUSES

A iguaria, de origem canavieirense, também é desejada por presidentes da República, governadores de Estado, reis e até por “pobres mortais”

Por Walmir Rosário


 Cabeça de Robalo elaborada pelo Restaurante Alegria de Viver,
o prato tradicional da gastronomia de Canavieiras
Os deuses gostam de dendê, tanto isso é verdade que um dos pratos mais desejados da riquíssima gastronomia canavieirense é a “cabeça de robalo”. Disto não se tem qualquer dúvida. A incerteza de quem ainda não foi apresentado a esse manjar dos deuses é apenas em relação à matéria-prima, pois os pobres mortais que ainda não tiveram o prazer de degustá-lo não concebem, à primeira vista – ou audição – de como os deuses poderiam apreciar uma parte do peixe cheia de ossos e espinhas.

À primeira vista da iguaria, desfaz-se a incerteza com a imagem, saliva-se a boca, aguça-se o paladar, despertando o primeiro dos sete pecados capitais: a gula. Pessoas de gosto refinado e alto conhecimento gastronômico contam que é impossível de controlar os instintos. Chegam ao ponto de afirmar o ato de comer cabeça de robalo, está longe ser ser um pecado capital, e é, sim, uma virtude, pondo por terra a teoria desenvolvida pelo Papa Gregório Magno no século VI.

E têm razão os nobres defensores desta tese. Pra início de conversa, a cabeça de robalo é um prato exclusivo da gastronomia canavieirense, onde os manguezais são considerados os maiores e mais ricos do Brasil, dada a sua diversidade. Não é por acaso que o caranguejo – Ucides cordato – de Canavieiras é tido e havido como o mais gostoso crustáceo de toda a costa brasileira.

E as virtudes gastronômicas da cabeça de robalo ultrapassaram as fronteiras de Canavieiras e Costa do Cacau, chegando a Salvador, Brasília, outros estados e até países. Passou pelas cozinhas e chegou aos salões de banquetes de palácios republicanos e conquistou – definitivamente – a realeza. Por dois anos seguidos o Rei e a Rainha da Suécia, Carlos XVI Gustavo e Sílvia vieram desfrutar do verão de Canavieiras, onde o Rei praticou a pesca do marlim e o casal se deliciou de algumas vezes com a iguaria.

Hoje deitada em berço esplêndido, a cabeça de robalo nasceu em casa tosca, como relata Edelzuita Maria Santana, que aprendeu a preparar esse prato com sua mãe. Aos poucos, a cabeça de robalo deixava de ser apenas um prato inusitado para ganhar status de prazer culinário. Do modesto bar e restaurante “Fundo de Quintal”, ganhou o mundo.

Dona Edelzuíta foi a criadora do prato
mais famoso de Canavieiras
Nas histórias contadas pelo historiador Antônio Tolentino (Tolé), era muito comum eles levarem os colegas do Banco do Brasil para comer a novidade e eles comerem tudo e ainda perguntarem “Quando é que vem essa cabeça de robalo, pois já comemos toda a entrada?”. Para eles isso era motivo de constantes brincadeiras e que ganhava o mundo.

O Raimundo Antônio Tedesco, conta em suas reminiscências, que quando a cabeça de robalo se tornou amplamente conhecida, tentaram até mudar o seu nome para top less, numa alusão à moda criada na Inglaterra em que as mulheres ficam com os seios à mostra na praia. “Mas esse nome não pegou e o que prevaleceu mesmo foi cabeça de robalo.

Surfando na onda do marketing concebido pelo prefeito de Canavieiras à época (e atual), Almir Melo, que cunhou o slogan “Canavieiras para todos, Canes para os íntimos”, a cabeça de robalo também ganhou rápida ascensão. Em um Carnaval, Almir Melo encomendou 600 cabeças de robalo, que foram consumidas vorazmente, para o desespero dos convidados.

O prefeito Almir Melo é muito “cobrado” pelas autoridades, a exemplo de Jaques Wagner e até mesmo do ex-presidente Lula (recentemente em Salvador) quando se encontra com eles. Em Feira de Santana, durante a entrega de caminhões e máquinas aos municípios baianos, até a presidenta Dilma manifestou sua predileção pela iguaria, quando foi informada pelo governador: É ele o prefeito de Canavieiras que nos manda a cabeça de robalo!”, disse Wagner.

E assim a presidenta Dilma deu uma pequena pausa na cerimônia para manifestar seu desejo em voltar a receber uma boa remessa de cabeça de robalo. Na alta corte de Brasília, aliás, faz tempo em que os presidentes se deliciavam com a novidade canavieirense, levada, pelo que dizem, por político Antônio Carlos Magalhães.

Matérias foram elaborados e publicadas nos veículos de comunicação, para o desespero de dona Edelzuita, que não aguentava mais para atender a tantas encomendas. “Almir foi o grande incentivador e divulgador da cabeça de robalo e já cheguei a ir a Salvador, convidada por um dos políticos mais famosos da Bahia, para preparar na festa de casamento. “Foi sucesso absoluto”.

Com o aumento das encomendas – que teria de despachar, inclusive por via aérea –, aos poucos, ela foi passando o conhecimento para outras pessoas e atualmente algumas pessoas se destacam no preparo da cabeça de robalo. Uma delas é Conceição de Oliveira, que diz ser o melhor caranguejo para a cabeça de robalo o catado de dezembro a agosto, principalmente nos meses em que não têm a letra “r” no nome.

Segundo Conceição, é preciso observar a melhor época para preparar a cabeça de robalo, respeitando, inclusive o período do “defeso”. Nesta época, diz ela, somos muito cobradas pelos clientes, mas não podemos transgredir a lei e nem vender um produto que não seja de qualidade.

Gostoso de comer, trabalhoso de fazer. Assim é a cabeça de robalo. Mas é a lei da oferta e da procura, pregada pela economia. No caso de cabeça de robalo, não se economiza atenção na hora de lavar e escovar bem a carapaça, quebrar as pernas e “catar” (tirar a “carne” das patas do caranguejo). Abra a carapaça com uma faquinha e retire tudo que tem dentro, inclusive o fel; tempere as “carnes” até o tempero murchar e recoloque no lugar.

Os temperos são: coentro e cheiro verde, tomate, cebola, pimentão, pimenta-de-cheiro, camarão, biri-biri, leite de coco e dendê. Leve a panela ao fogo, vá colocando o dendê e o leite de coco aos poucos. Deixe cozinhar como moqueca, e com o caldo faça um pirão. Depois é só servir com pirão e arroz branco. Mas, em vez de tentar prepará-lo, se torna mais fácil comprá-lo (congelado) numa das tantas especialistas canavieirenses, ou pronto no Restaurante Alegria de Viver, por exemplo, e desfrutá-lo, à beira-mar. É mais garantido.

E desta maneira, pode usar e abusar dos pecados capitais, a exemplo da luxúria, deixando-se dominar pelas paixões; a preguiça, após comer à vontade; a vaidade, pelo orgulho de ter comido bem … e muito…. Quanto à inveja, deixe que os outros que não provarão possam ter por você. Com certeza, lhe darão razão no futuro.

domingo, 11 de janeiro de 2015

CONFIRMADO: MAL-ASSADO REINOU ABSOLUTO NA CONFRARIA DO BERIMBAU

De volta uma das tradições do primeiro sábado do mês, o mal-assado de Zé do Gás ornamentou balcão, mesas e estômagos. É certo que este mês chegou com um certo atraso, mas promete retornar no dia 7 de fevereiro próximo, com tudo que tem direito.
Tolé faz as honras da casa, cortando o mal-assado

sábado, 10 de janeiro de 2015

SÁBADO SOLENE NA CONFRARIA DO BERIMBAU

Com uma simples canetada a Confraria do Berimbau transferiu o mal-assado do primeiro sábado do mês para hoje, o segundo. A mudança surpreendeu, inclusive, o secretário-geral, Antônio Tolentino (Tolé), que compareceu na data e horário de praxe para a lavração da ata e o colhimento das assinaturas. Ao que tudo indica, neste sábado os confrades não serão surpreendidos com mudanças de última hora.

No sábado (3) foi dia de fartura no Berimbau. Linguiça à Confraria do Alto Beco do Fuxico, muquecas de arraia e meca pra comer. Pra beber a fartura era ainda maior. Uma coisa que eu não sabia era que linguiça com guaraná combinavam, o que foi provado e comprovado por Antônio Amorim Tolentino (Tolé).

Muqueca de Meca salgada trazida por Tedesco e de Arraia, por Pedro Inácio.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

ESCOLHA DOS HOMENAGEADOS DO TROFÉU GALEOTA DE OURO PRECEDIA DE RITUAL LITÚRGICO

Walmir Rosário
Muitos são chamados, mas poucos escolhidos. Essa pequena passagem da Bíblia (Mateus 22:14) mostra claramente a forma da escolha da seleta lista de homenageados com o Troféu Galeota de Ouro. Ao contrário do que se pensava – e ainda pensam alguns desavisados –, que os distinguidos com a honraria pelos feitos etílicos se dava pela contumácia ou o reles ato de beber e se embriagar diariamente, sem pompas ostentação ou esplendor de dar inveja aos mais acatados abstêmios.
A escolha precedia de um amplo ritual litúrgico, com a finalidade de comprovar e mensurar o trabalho realizado pacientemente pelos olheiros da “Comissão de Observação da Confraria do Berimbau”. A cada ação desastrada cometida pelo indigitado “cachacista” chegada ao conhecimento e ao domínio público, o candidato recebia uma simples advertência, um cartão amarelo e, a depender do escandalizante ato, um cartão vermelho. Dois cartões vermelhos, então se tornava um candidato difícil de ser batido.
Era nesse local que os Confrades escolhiam seus homenageados
Mas como não há nada tão ruim que não possa piorar, a brilhante e implacável Lei de Murphy descia sobre as “cabeças coroadas” como se fossem a verdadeira “espada de Dâmocles”. Mas, pela seriedade e responsabilidade que caracterizava a isenção da escolha dos ganhadores do troféu, a decisão tinha que ser colegiada, após a análise de pesos e medidas estabelecidos.
Tal e qual praticavam as instituições medievais, os membros da Confraria do Berimbau – vestidos a caráter – se reuniam numa salinha escura nos fundos do Tabu, iluminada apenas por uma lamparina a vela, conferindo a escrita de cada verso do cartão, analisando o grau de gravidade. Dois cartões amarelos equivaliam a um vermelho...dois vermelhos então...Mas tinham aqueles que bastava uma falta gravíssima, como a de perder o endereço de casa, trocando a estrada do mar para a da montanha...era bingo.
Algumas faltas chegavam a ser consideradas impublicáveis, como as cometidas na própria casa e que chegam ao domínio público após alguma indiscrição com um vizinho ou parente mais chegado. Alguns outros, pela teimosia dos acometimentos, tiveram que ser considerados “hors concours” pela falta de concorrentes à altura das faltas cometidas e anotadas pelos olheiros do Posto de Observação.
E assim eram escolhidos os distintos honrados com o Troféu Galeota de Ouro, sem privilégios, tráfico de influência ou compra de galões e patentes. Igual ao que preceitua o conceituado Jogo de Bicho: vale o escrito.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

E O BERIMBAU VOLTOU – COM TODA SUA FAUNA


A clientela voltou ao Berimbau nos dias de sábado
O dia era 13 de dezembro e foi comemorado com todas as honras, até para Santa Luzia, como consta na abertura da ata, lavrada pelo eterno secretário Tolé. Antes, ao raiar do dia, alvorada com fogos, tudo igual como na comemoração do Dia de São Boaventura (15 de julho, data tida e havida como a verdadeira). Afinal, a data tinha que ser comemorada com todas as honras, pois estava de volta o Berimbau, sem o comando físico de Neném de Argemiro, que cedeu o lugar ao casal Zé do Gás e Vera.
Da “fauna” frequentadora, todos presentes conforme a chamada, exceto aqueles que se foram para fazer companhia a Neném. Dos presentes, dois subverteram a ordem: Tolé e Turrão fizeram pouco das cachaças e cerveja, menos Tolé que tentava enganar a galera com uma Brahma sem álcool (um desrespeito a um lugar tão sério). Das ausências, algumas devidamente alegadas por justo motivo, mas com presença garantida para as próximas.
Com mais de 40 anos de experiência no ramo etílico, o Berimbau retorna às atividades mantendo o ritual e todas as liturgias, a exemplo da batida do sino, e do bate-papo puro e desinteressado da vida alheia. Como de sempre, a cachaça, cerveja bem gelada e o mal-assado de sábado. Não faltaram visitas dos clientes que hoje residem outras cidades. Os membros Confraria do Berimbau se fizeram presentes, como antes.

Daqui pra frente todos os sábados serão diferentes.

CONFIRA O ÁLBUM DE FOTOS 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O CASTIGO VEIO DE KOMBI

Walmir Rosário*


O ano era 1977 – salvo melhor juízo – período em que retornei de Salvador para Paraty. À época, a cidade já passava por uma transformação, porém ainda mantinha seu espírito bucólico, em que prevalecia a amizade, apesar da recém-chegada onda consumista. A chegada do progresso era fato e todos queriam se beneficiar dele e de seus efeitos, mas de forma honesta, no pensamento de alguns.

Entre as atividades em ascensão a produção de cachaça era a mais promissora delas, notadamente para quem conhecia do ofício, como Eduardo Mello, o Eduardinho, fiel seguidor dos ensinamentos do seu pai, Antônio Melo, produtor – por anos a fio – da cachaça “Quero Essa”. Com a venda da Fazenda Boa Vista, os novos proprietários – industriais paulistas, creio eu – fechou o alambique, deixando órfãos uma legião de cachacistas apreciadores do bom e precioso néctar da cana.

E nada tirava da cabeça de Eduardinho continuar a desempenhar o mister aprendido por anos e anos, plantando, colhendo, moendo cana e destilando o seu caldo até chegar ao ponto ideal da excelente cachaça. Não é de hoje que a cachaça de Paraty era cantada verso e prosa Brasil afora, e a semelhança não é mera coincidência, Paraty cidade, paraty cachaça, da boa, como convém aos apreciadores mais entendidos.

Até que chegou a oportunidade de ouro para o filho de Antônio Mello. Após várias tentativas, eis que um dos bons produtores de cachaça, o Ormindo, que fabricava a Coqueiro, pretendia se aposentar. Por outro lado, Eduardinho, que se aposentara precocemente e temporariamente, queria voltar a trabalhar, alambicar cachaça, cachaça do mesmo padrão de qualidade da “Quero Essa”, ou da “Vamos Nessa”, feita pelos seus avós. Era o caldo de qualidade, no fogo adequado.

E para “fechar o negócio”, marcamos uma Sexta-feira da Paixão como o “Dia D”. Tudo de forma bem planejada numa das muitas noitadas do Cana Verde. Cerca de meia-noite saímos da boemia com o compromisso de estarmos de prontidão às 6 da manhã no cais e zarpar para o encontro com o Ormindo, na Fazenda Engenho D'água.

No horário aprazado, lá estávamos nós – eu, Eduardinho, seu irmão Neguinho (Antônio Carlos) e Jorginho, este amigo e dono do barco que nos levaria ao então alambique, cujo único meio de comunicação era o marítimo. Apesar de cedo, já encontramos aberto o bar “Bem-me-quer”, do Edmir, e encomendamos nossas provisões (víveres) para a viagem. Do pedido constaram 24 latas de cerveja Skol, carteiras de cigarros (ainda tínhamos esse péssimo vício) e oito sanduíches de filé.

A manipulação dos sanduíches foi prontamente rechaçada pela cozinheira Madalena, que se recusou a cometer tal heresia:

Comer carne na Sexta-feira Santa é um sacrilégio e Deus vai castigar quem fizer e comer – se desesperou Madalena.

Após várias intervenções de Edmir, finalmente, muito a contragosto, Madalena preparou os (mal)ditos sanduíches e rumamos para embarque na Kombi (assim era chamado o barco de Jorginho, pela sua aparência com o veículo fabricado pela Volkswagen). Após umas três cervejas e dois sanduíches de filé, finalmente chegamos à fazenda de Ormindo.

Negócio fechado, comemoramos com mais um litro de Coqueiro e alguns mergulhos no mar. Ao por do sol resolvemos rumar de volta para Paraty, fazendo planos para a mudança do alambique e a nova produção.

Tudo era festa, até notarmos os primeiros sinais de problema no motor da Kombi “flutuante”, que começou a perder força. Diagnóstico feito na hora, era a junta do cabeçote que tinha queimado. Alegres e satisfeitos com a aquisição do alambique, não nos afobamos e a cada cinco ou dez minutos desligávamos o motor até que esfriasse, para navegarmos mais um bom pedaço.

Se os problemas do barco não nos afligia, situação diferente se passava na cidade, após constatado o nosso sumiço. No bar, Madalena não se cansava de pregar os castigos de Deus com os hereges que se atreveram a comer carne na Sexta-feira da Paixão, desafiando os desígnios de Deus. Aos poucos, nossas famílias foram para caís, apavoradas com a demora do regresso, a notícia “corria costa” e as versões superavam o fato.

De boca em boca, Deus tinha feito justiça e castigado os hereges, que perderam-se no mar, naufragando com o peso dos pecados. No mar, cumpríamos nosso “encargo” de navegar e parar para esfriar o motor. Enquanto isso, o povo não arredava o pé do cais, para o desespero de nossas famílias.

Persistentes, nós sobreviventes de um quase acidente marítimo, fomos nos aproximando da cidade. Para nossa alegria, já avistávamos as luzes. Ligávamos o motor...logo em seguida desligávamos, e assim nos aproximávamos do cais.

E esse “calvário” continuou até as 21 horas, quando aportamos, para o alívio e felicidade geral. Âncora ao mar, barco amarrado na ponte, seguimos desfazendo a curiosidade alheia e a bronca das mulheres. E fizemos o primeiro pit stop etílico no “Bem-me-quer”, ponto de origem de toda a fofoca sobre nossas quase mortes no mar da Baía de Paraty.

E, juntos, pedimos ao Edmir uma Coqueiro e à Madalena mais um sanduíche de filé para comemorar a nossa ressurreição!


*Apreciador da boa cachaça.

NO BERIMBAU É ASSIM ...FALTOU, É CITADO POR EDITAL

A direção de o Novo Berimbau, boteco que agora reabre em Canavieiras, enfrenta um sério problema para convidar, ou convocar, como expressa o convite, dos frequentadores, especialmente os membros da Confraria do Berimbau.
Um dos problemas já foi resolvido: "os que passaram desta para melhor", como diz o ditado, serão convocados pelo próprio Neném de Argemiro. Já os que ainda teimam em continuar nesta terra de meu Deus, mas residindo em outras plagas, é não tiveram a convocação resolvida.
Opções várias foram apresentadas, como os telefonemas e o envio de correspondência pelos Correiros, com as características antigas e eventuais. Esta, entretanto, não foi bem aceita, pois os carteiros destas cidades na qual residem os expatriados podem não conhecê-los como no costume anterior.
Mas, do alto de sua sabedoria, o Decano dos Confrades e Decano dos Secretários Municipais, Antônio Amorim Tolentino, consultou o seu Vade Mecum e, com ar eminentemente professoral, determinou: "Ora, está aqui no artigo 3º da Lei de Introdução do Código Civil: "Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece".
E do alto de sua sabedoria, arrematou: "Como se diz no popular, a ninguém é dado o direito de desconhecer a lei, portanto, citem-se os residentes em local incerto e não sabido por edital".
Nada mais disse e não lhe foi perguntado. Apenas cumpriu-se.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Nascimento, vida e morte – a história da Galeota de Ouro em três atos

Walmir Rosário*

Motorista, não se deve dirigir bebendo, você pode derramar a bebida”,
ensinamento deixado pela Confraria do Berimbau para a posteridade.

Desde que o mundo é mundo e nele mora gente ser levado pra casa por um carrinho de mão é sinal de que o cidadão extrapolou na bebida. Na Vila Imperial de Canavieiras – mesmo já emancipada politica e administrativamente – esse costume nunca foi diferente, afinal, os amigos são para essas coisas, ainda mais sendo “levado aos costumes”, no trajeto do boteco para casa.
Artur da Farmácia, o primeiro ganhador do Troféu

O Nascimento - O bancário Kleber Assunção (entre outros indigitados) não dispensava o serviço prestado pelos amigos, assim como outros indigitados bebedores. E essa cena do cotidiano despertou a atenção de um grupo de amigos – craques do mesmo time, ou farinha do mesmo saco – para comemorar tão repetido gesto de solidariedade.

A turma que secava as garrafas do Berimbau, boteco de respeito e que se prezava pelo diversificado estoque de engarrafados, resolveu levar a comemoração ao pé-da-letra, concebendo um evento para distinguir – com as patentes e galardões merecidos – os merecedores de tão importante e significativa honraria.

Para não sofrer as conhecidas pressões de grupos e indivíduos interesseiros e interessados, a primeira reunião foi agendada para a nem tão pomposa Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB), com a finalidade de conceber e planejar importante evento. Após discussões intermináveis, não se chegou a consenso algum, pois a embriagues dos pioneiros organizadores não permitiu.

Teimosos e compenetrados em desmoralizar o ditado popular que afirma em alto e bom som de que “padeiro não come pão”, após passada a bebedeira da reunião inicial, Tolé, Tedesco, Tyrone, Juca Seara e Turrão voltaram à carga em novo encontro, desta vez todos desarmados das garrafas de bebidas alcoólicas – enquanto durou o conclave –, admitindo-se apenas a ingestão pura e simples de água mineral sem gás.

Aos que não tiveram nenhum contato físico – ou por ouvir dizer – com o “Troféu Galeota de Ouro”, aqui vai um aviso. A criação evento pela Confraria do Berimbau se dera por dois motivos: o primeiro exclusivamente festivo, na qual sobressaíssem atos de euforia, causados pelo excesso de bebidas, desregramento e libertinagem; o segundo, para continuar ao lado de Neném de Argemiro, dono do boteco e personagem inspirador.

A Vida - Do demorado e complicado “parto”, nasceu, finalmente, o “Troféu Galeota de Ouro”, a ser promovido no segundo domingo de dezembro, data que seria incorporada ao calendário turístico etílico de Canavieiras, com o pretexto de estabelecer a abertura do verão canavieirense. Agora, sim, era chegada a hora da comemoração com muita cerveja.

Plano traçado, projeto escrito e datilografado, bastava correr à rua para conseguir o patrocínio para viabilizar o “Troféu Galeota de Ouro”, que teria como palco o famoso Beco do Berimbau, também apelidada de rua Dr. João de Sá Rodrigues, no conceituadíssimo trecho compreendido entre a esquina de Tião da Kombi até a rua Dr. José Marcelino.

Para quem não lembra, era o ano de 1996. Projeto debaixo do baixo, os próceres da Galeota fecharam o patrocínio e todos os detalhes financeiros foram sendo sanados. Utilizando as mais conhecidas ferramentas de marketing, cada patrocinador, além das logomarcas estampadas nas camisetas, ainda levavam algumas dezenas para oferecer aos clientes e amigos.

O Balcão da Cachaça era cobiçado pelos biriteiros homéricos 
Vencida a primeira e mais dificultosa etapa, não custou muito conseguir a liberação para o fechamento com tapumes do Beco do Berimbau junto ao Poder Público. Na data aprazada, após frequentes e intermináveis reuniões, os homenageados escolhidos e nomes guardados a sete chaves, é chegado o dia.

Não chegou a ser um primor de festa, mas valeu pela alegria, simplicidade e o inusitado da promoção, que escolhia personalidades habituais nos usos e costumes dos botecos da vida e que cometia desatinos etílicos devido ao êxtase causado pela ingestão exagerada de bebidas alcoólicas. Exaltações essas que costumavam chamar a atenção do seleto grupo que compunha a excelsa comissão de observadores da Galeota de Ouro. Neste primeiríssimo ano foi sagrado vencedor Artur da Farmácia, cujo feitos foram grafados em letras garrafais dos anais da Confraria do Berimbau.

Para uns, a glória, para outros, nem tanto. Existiam alguns, que nem mesmo compareciam ao suntuoso evento antes de anunciado os nomes dos distinguidos com tamanha honraria. É certo que mesmo os contumazes biriteiros dignos do domínio público se recolhiam às suas casas ao descobrir a comissão de observadores numa festa de largo, a exemplo dos festejos profanos de São Boaventura. E não era por recato, garanto.

Mas com a diversidade de cachacistas juramentados merecedores da distinção a tamanha honraria, ela passou a ser medida em graus, conforme a intensidade do tresloucado ato cometido, de acordo com a categoria criada pelos confrades. A premiação variava conforme os “micos” cometidos durante o ano em observação.

Além do primeiro vencedor, foram instituídos os troféus para a categoria “Feminina” (a única ganhadora foi Lurdinha Fróes), Conjunto da Obra”, “Casal Bebum”, “In Memoriam”, “Boêmio Visitante” e “Homenagem Especial”. Concorrentes em profusão, mas como diz a Bíblia: “Muitos os chamados, poucos os escolhidos”, o Troféu Galeota de Ouro teve seus dias de glória e reconhecimento local, estadual, nacional e quiçá internacional.

Mas como tudo na terra tem um objetivo a cumprir, seu fim foi decretado em 2002, cujo Troféu somente foi realizado em 2003, por conta de confusões e incompreensões entre os confrades (dizem que foi praga de um padre insatisfeito de sua pretensão). E a vingança foi “maligrina”, como diria o “vampiro brasileiro”, com as constantes marcações e atrasos na realização do troféu. Um desses motivos foi a morte do confrade Aécio da Silva Almeida.

A Morte - Há quem compare o triste fim do Troféu Galeota de Ouro à Torre de Babel, que queria ser maior do que Deus, e que pela desobediência foi transformada numa confusão de línguas em que um não compreendia o outro. Há quem jure, de pés juntos, que a política partidária teria sido a causadora da desagregação dos confrades e não a praga lançada pelo padre, tese que tem merecido diversas considerações científicas a respeito.

No processo de desmoronamento causado pela religião, de acordo com a praga rogada pelo padre – conforme reza a história –, a que diga que um dos confrades, temente a Deus, é bom que se diga, chegou a fazer uma promessa para parar de beber. Pedido ouvido, até hoje o distinto se porta como um abstêmio convicto. Mas Tolé foi apenas uma exceção.

Entre essas reflexões, contam que o principal fato gerador teria sido o afastamento do então prefeito do cargo, fundamento significativo para que dois dos seus colaboradores – Juca Seara e Turrão – não quisessem mais participar da sua organização. Em 2005 foi feita uma nova tentativa de ressuscitar o Troféu Galeota de Ouro em outro local – no Pastinho –, cujo know-how foi cedido a Alvinho e realizado com sucesso, mas que não resistiu à falta de chame, sedução e encanto dos confrades.

Faltava à nova edição do “Troféu Galeota de Ouro” a irreverência da Confraria do Berimbau e a certeza da escolha dos homenageados entre os bebuns que mais aprontaram durante o ano. A escolha, aliás, era um processo exclusivo e burocrático, com a aplicação de “Cartão Amarelo” aos candidatos, culminando com o “Cartão Vermelho”, quando o processo se tornava irreversível aos olhos dos confrades que integravam a Comissão de Observação.

Segundo conta a lenda que corre-costa, nunca se deve misturar religião por política, nem pinguço se arvorar a Deus. A mistura, no máximo, deve se limitar a cachaça com limão.

*Também frequentador do antro